A IA vai tirar seu emprego? Estudo revela um impacto que pode acontecer antes das demissões

A inteligência artificial já está transformando o mercado de trabalho, mas os primeiros efeitos podem ser diferentes do que muita gente imaginava.

Em vez de simplesmente substituir trabalhadores, a IA pode estar fazendo com que os salários de algumas profissões cresçam mais lentamente.

Essa é a principal conclusão de um estudo da gestora americana Apollo Global Management, que analisou 321 ocupações nos Estados Unidos e comparou dados de salários, emprego e exposição real às ferramentas de inteligência artificial.

O salário pode ser o primeiro impacto da IA

Segundo o estudo, profissionais que trabalham em ocupações mais expostas à inteligência artificial tiveram um crescimento salarial 6,7 pontos percentuais menor do que trabalhadores de profissões menos expostas após a popularização de ferramentas como ChatGPT e Claude.

O impacto foi ainda maior entre trabalhadores de menor renda: nesse grupo, a diferença chegou a 10,7%.

É importante entender que isso não significa necessariamente que essas pessoas passaram a ganhar menos. O que a pesquisa identificou foi que seus salários cresceram mais devagar em comparação com outras ocupações.

Esse fenômeno é chamado pelos pesquisadores de “compressão salarial”.

Em outras palavras: a tecnologia pode aumentar a produtividade de uma empresa sem que esse ganho seja necessariamente convertido em aumentos proporcionais para os funcionários.

Quais profissões estão mais expostas à IA?

O estudo identificou 11 ocupações com alto nível de exposição à inteligência artificial:

ProfissãoÍndice de exposição
Programadores0,75
Atendentes de atendimento ao cliente0,70
Digitadores e profissionais de entrada de dados0,67
Especialistas em prontuários médicos0,67
Analistas de mercado e marketing0,65
Transcritores médicos0,64
Representantes de vendas não técnicas0,63
Arquitetos de banco de dados0,58
Analistas financeiros e de investimentos0,57
Analistas e testadores de qualidade de software (QA)0,52
Assistentes estatísticos0,51

A lista mostra um padrão: são principalmente profissões que trabalham com textos, dados, documentos, informações, atendimento e análise — justamente atividades nas quais a IA generativa consegue executar ou auxiliar uma parte significativa das tarefas.

Estar exposto à IA não significa perder o emprego

Esse é um dos pontos mais importantes da pesquisa.

Uma profissão apresentar alta exposição à inteligência artificial não significa automaticamente que seus trabalhadores serão substituídos.

Um exemplo é o setor financeiro. Analistas financeiros e de investimentos aparecem entre as ocupações mais expostas, mas o número de trabalhadores dessa área cresceu 16,9% entre 2022 e 2024.

Por outro lado, os programadores, que aparecem em primeiro lugar no ranking de exposição, tiveram uma redução de 17,2% no número de trabalhadores e uma queda salarial real de 6,1% no período analisado.

Isso mostra que a relação entre inteligência artificial, empregos e salários é muito mais complexa do que simplesmente “IA substitui humanos”.

E quais profissões tiveram as maiores quedas salariais?

Quando o estudo analisou as variações salariais observadas entre 2022 e 2024, o ranking mudou.

Entre as maiores quedas estão:

  • Locutores de rádio e DJs: -52,1%
  • Técnicos de radiodifusão: -29,5%
  • Diretores musicais e compositores: -17,8%
  • Técnicos de instrumentos de precisão: -15,0%
  • Árbitros e mediadores: -14,1%
  • Artesãos: -14,1%
  • Psicólogos organizacionais: -13,4%
  • Juízes e magistrados: -13,3%
  • Escritores e autores: -12,7%
  • Legisladores: -11,7%

Mas existe uma ressalva importante: esses números não significam que a inteligência artificial foi responsável diretamente por essas quedas.

Salários podem ser influenciados por diversos fatores, como mudanças econômicas, demanda por profissionais, transformações tecnológicas e características específicas de cada setor.

E quanto aos empregos?

O levantamento também analisou as ocupações que tiveram as maiores reduções no número de trabalhadores.

Entre elas estão:

  • Vendedores porta a porta e jornaleiros: -46,9%
  • Fabricantes de moldes em madeira: -45,5%
  • Artistas de efeitos especiais e animadores: -40,9%
  • Legisladores: -38,2%
  • Técnicos de instrumentos de precisão: -37,8%
  • Coreógrafos: -36,5%
  • Técnicos de radiodifusão: -36,2%
  • Operadores de telemarketing: -31,2%
  • Entrevistadores de crédito: -28,7%
  • Astrônomos: -27,8%

Novamente, não é possível atribuir automaticamente essas reduções à inteligência artificial.

O estudo não encontrou, até o momento, evidências estatisticamente significativas de destruição de empregos causada especificamente pela exposição à IA.

O que isso significa para o futuro do trabalho?

A pesquisa apresenta uma mudança importante na discussão sobre inteligência artificial.

Durante anos, o principal medo foi:

“A IA vai roubar meu emprego?”

Agora surge uma pergunta diferente:

“A IA pode fazer com que meu trabalho valha menos no mercado?”

Essa possibilidade merece atenção.

Profissionais que realizam tarefas facilmente automatizáveis podem continuar empregados, mas enfrentar maior pressão sobre salários e crescimento profissional.

Por outro lado, quem aprender a utilizar a IA como ferramenta pode aumentar sua produtividade e assumir funções mais estratégicas.

Isso significa que o futuro provavelmente não será simplesmente “humanos contra máquinas”, mas cada vez mais “humanos que sabem trabalhar com IA contra humanos que não sabem utilizá-la”.

A IA vai substituir profissionais?

Ainda é cedo para afirmar.

O estudo analisou um período relativamente curto após a popularização da IA generativa e apenas 321 ocupações. Além disso, o índice de exposição foi baseado principalmente em dados do Anthropic Economic Index, que utiliza interações reais com o Claude e não representa necessariamente todo o uso de ferramentas como ChatGPT, Gemini ou sistemas internos das empresas.

Portanto, os resultados devem ser vistos como um sinal de alerta, e não como uma previsão definitiva do futuro do mercado de trabalho.

Conclusão

A inteligência artificial está mudando a maneira como trabalhamos e seus efeitos podem aparecer antes mesmo de uma grande onda de demissões.

O estudo indica que, pelo menos até agora, um dos primeiros impactos mensuráveis pode estar acontecendo nos salários, principalmente entre profissionais de menor renda que atuam em ocupações altamente expostas à tecnologia.

Para quem está no mercado de trabalho, a mensagem é clara: aprender a utilizar a inteligência artificial pode deixar de ser apenas um diferencial e se tornar uma habilidade cada vez mais importante para manter a competitividade profissional.

A tecnologia não necessariamente vai acabar com todas as profissões. Mas ela certamente vai mudar muitas delas.

E talvez a grande questão dos próximos anos não seja descobrir quais empregos a IA vai eliminar, mas sim descobrir quais profissionais conseguirão se adaptar melhor a ela.

Fonte: G1, com base em estudo da Apollo Global Management.

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